50% Buda, 50% Beyoncé… a maior força da Helena é, possivelmente, conhecer-se bem ao ponto de saber as suas competências, bem como os seus limites, equilibrando a sua aspiração entre a acção e o impacto positivo e a natural necessidade de recolhimento e contemplação.

Conhecemos a Helena Antónia Silva há já vários anos, desde que a sua marca, Vintage for a Cause, passou a fazer parte da selecção de marcas sustentáveis da nossa loja, em 2019.

Com a habitual energia positiva contagiante, a Helena conquistou-nos, não só pelo conceito da VFC muito alinhado com a nossa linha de actuação, mas também pela sua personalidade, sensível e sonhadora, pragmática e determinada.

Advogada de formação, a Helena mudou de rumo e advoga, desde 2012, o upcycling e a inclusão social através da Vintage for a Cause.

Marca que é também uma causa, com a missão da reduzir o desperdício têxti,l em paralelo com a capacitação e promoção do envelhecimento activo de mulheres acima dos 50 anos. 

Cada peça da VFC, habitualmente desenhadas por designers externos (como Katty Xiomara, Ana Batalla, Helena Cardoso, Bruno Cunha, entre outros) tem por trás um modelo slow fashion. Apostando no design intemporal, contraria a lógica das colecções, ao mesmo tempo que adopta um ciclo próprio, mais sustentável, baseado nos recursos existentes, na procura e na produção de pequenas quantidades e de peças exclusivas. Conceito que lhe tem valido diversos apoios e prémios (CMP, EDP, Gulbenkian ou Yves Rocher)

As peças da Vintage For a Cause podem ser encontradas na loja física e online da marca, bem como na loja física e online da CRU, pois claro! 

O que é que te levou a criar a Vintage For a Cause?
A VFC foi um acaso. Nasce como ideia em 2012 , porque fui fazer uma pós-graduação em Empreendedorismo e Inovação Social, sem grandes objetivos. A minha intenção era só divergir da minha atividade profissional da altura, advogada e técnica de sinistros numa seguradora.
Tive de apresentar uma ideia de negócio que respondesse a um ou mais problemas sociais ou ambientais. E penso que foi a minha experiência pessoal que condicionou a ideia que surgiu na altura: criar clubes de costura para tirar mulheres isoladas de casa onde elas transformariam roupa e materiais descartados em roupa urbana cool (peças que eu queria encontrar a preços competitivos) em co-criação com designers , de forma a ocuparem o seu tempo de forma criativa e estimulante, terem rendimento extra e voltar à vida ativa num registo mais adequado à sua fase de vida.
Claro que o projeto foi evoluindo à medida que fomos falhando e avançando, com os necessários ajustes. Mas desde sempre teve como premissa a reutilização criativa de recursos em abundância para criar roupa diferenciada e potenciar o  redesenho das relações entre os diferentes stakeholders da forma mais equilibrada possível de forma a gerar ganhos para todos os envolvidos, com foco na inclusão social de públicos mais marginalizados.

Tenho de admitir que na altura não olhei para a VFC como o meu possível emprego ou uma fonte de rendimento e que durante alguns anos não tive consciência clara da melhor classificação para a iniciativa. Era simplesmente algo novo que me permitia aplicar e desenvolver competências e estar em constante aprendizagem e em contacto com pessoas de setores diferentes.

 

 

És senhora ou escrava do teu tempo?

Imponho-me ser mais senhora do meu tempo,do que escrava dele. Mas é uma conquista on going e uma gestão desafiante. Fui conquistando isso por etapas, definindo rotinas de trabalho e de cuidados pessoais, intenções diárias, e aprendendo a dizer não com menos hesitação.
Tenho vindo a aprender com outras pessoas, sobretudo de culturas diferentes, o quão importante é “trabalhar bem” ou “work smart” em vez de trabalhar muitas horas ou “work hard”. Isso, aliado a uma maior honestidade em relação aos meus limites, foi fazendo toda a diferença nessa gestão.

Que livros mais te influenciaram na tua vida profissional?
Consumo desde sempre imensa literatura na área do desenvolvimento humano ( gosto particularmente de autores como Joe Dispenza ou Gregg Braden ou até Simon Sinek).
Por necessidade constante de aprofundar diferentes temas, leio bastante sobre moda sustentável e economia circular de variadíssimos autores e até investigadores. (E existem tantos autores incríveis. Eu gosto da Sandy Black e da Sass Brown, mas existem milhentos.)
Porém, diria que o livro do Daniel Christian Wahl “Design de culturas regenerativas” foi possivelmente o mais impactante, porque me fez compreender melhor o que seria na realidade a mais valia de iniciativas como a Vintage for a Cause dum ponto de vista sistémico.

Quem são os clientes da Vintage For a Cause e o que é que os faz escolher os teus produtos?
A Vintage for a Cause tem diferentes tipos de clientes, dadas as valências de intervenção (social, ambiental e económica). Ainda assim diria que o método é sempre o mesmo: criar redes e parcerias alinhadas que vamos trabalhando o mais possível e acabam por trazer maior força de comunicação.
Associamo-nos a mais marcas, projetos, em contextos segmentados.
Quer no mercado interno, quer no mercado externo, recorremos sempre presenças em plataformas ligadas a economia circular, inovação social e moda sustentável e comunicamos bastante sobre impacto.
No que respeita ao produto, quem escolhe a marca são clientes que compram duma forma mais informada e que gostam de se diferenciar nas tendências e na norma. Apreciam a forma como o produto foi feito, mas em primeiro lugar um design mais improvável a um preço competitivo.
A marca pretende também democratizar o acesso à moda sustentável.
Temos recentemente abordado a comunicação também sob o ponto de vista de PR e assessoria de imprensa com uma parceria com a C.Greener.

Atrás de uma grande mulher está sempre…quem?
Uma mega cama elástica composta por imensas pessoas, que compõem a equipa core, os voluntários, os múltiplos profissionais que representam os nossos clientes ou parceiros e uma quantidade de pessoas que me vai tocando de formas que nem têm consciência e que, independente da natureza da relação que possamos ter, são verdadeiros supporters.
E claro, a minha família, amigos e pessoas próximas que me apoiaram sempre incondicionalmente.

Que ‘camisolas’ vestes com entusiasmo?
Entusiasmam-me “camisolas” que funcionem para a mudança e para o bem comum. De forma realista, palpável, em equidade, e abrindo espaço para que mais pessoas possam juntar-se e desenvolver-se em conjunto.
Por isso, estou ligada a mais organizações como a Fashion Revolution Portugal, Circular Economy Club ou à Between Parallels e a grupos mais informais que gostem de fazer coisas giras e saudáveis.

Conta-nos qual foi a tua primeira crise enquanto empreendedora.
Nunca me levei nem levo muito a sério como empreendedora. E tenho crises amiúde, porque sinto que estou a trabalhar numa área que tem de ter KPI’s diferentes, mas para os executar tenho de usar os mesmos de qualquer negócio e dum sistema mais capitalista e competitivo onde é difícil encaixar.
E é um jogo complexo, que tem tanto de desafiante como de estimulante, dada a gestão multi-stakeholders que obriga.
E, por outro lado, conheço-me, e sei que o meu perfil serve parte das necessidades do jogo, mas não todas. Tenho consciência ainda que, em função da evolução da marca, poderá fazer sentido eu mudar o meu papel na mesma e partilhar a liderança.
Esta experiência permite acima de tudo um desenvolvimento e aquisição de competências e redes de apoio que me capacitam para fazer qualquer outra coisa e sinto-me muito confortável com a ideia de que a minha evolução profissional pode passar por abraçar outros projetos com que me identifique e a que o meu perfil possa servir.

Como vês o crescimento e a escala da Vintage For a Cause nos próximos anos?
O modelo de escala dum negócio com a cadeia de valor da VFC só pode ser equacionado numa lógica de replicação de framework que aproveite e redesenhe estruturas e a utilização de recursos já existentes, que possa ser liderado e implementado com alguma descentralização. Mais num formato de plataforma agregadora dos stakeholders. É a única forma de gerar mais impacto. De forma leve, quase numa lógica de certificação e facilitação de processos para uma modelos mais locais, inclusivos e responsáveis.

Quem é a Helena quando não está a trabalhar?
Algumas pessoas que me conhecem melhor dizem que eu sou uma espécie de ’touro Ferdinando’. Gosto de estar tranquila a cheirar as flores debaixo das árvores (risos).
Sou uma introvertida que parece extrovertida. ‘50% Buda,  50% Beyoncé’ (risos).
Recarrego energias em silêncio e em contextos mais reservados com as pessoas mais próximas, mas adoro experimentar, explorar coisas e conhecer pessoas novas. Preciso de estar na natureza, comidinha boa e copos com conversas non-sense sobre coisas sérias, com gente boa, a rir muito, mas mesmo muito.
Almoços em família, apanhar sol, ginasticar, cuidar de mim (sou viciada em snifar óleos essenciais! ) ou simplesmente ‘estar a olhar para o nada’ ou respirar com calma são coisas que faço questão de incluir o mais possível no meu dia-a-dia.

Que dicas ou conselhos deixarias para alguém que está a começar na área do Empreendedorismo Social?
Fundamental: equipa, equipa e equipa. Testar e falhar bem e rápido, com pouco risco. Não ser perfecionista…
O resto diz respeito às soft skills (que deviam chamar-se strong skills), alguma sorte ou serendipidade.
E nesse campo, acho muito importante conhecermo-nos o mais possível, ter muita clareza em relação aos nossos termos pessoais de “sucesso” e estar super confortável com o falhar continuamente, porque isso vai ser a constante do processo que vai permitir aprendizagem e evolução do negócio, o que quer que isso venha a ser… Diria que 80% é compromisso e trabalho pessoal, boa equipa e boas relações e 20% ciência ou gestão.

O CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: cortesia Helena Antónia Silva

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